Natal, 29 de janeiro
de 2014.
Prezado aluno,
Resolvi escrever
esta carta especialmente porque hoje é o primeiro dia de aula. Sei o que
representa esse primeiro passo na nossa caminhada ao longo de mais um ano
letivo. Explico-me. Nessa explicação, porém, não me colocarei como professor,
mas como aluno que nunca deixei de ser. Pois bem. Normalmente iniciamos o ano
um tanto motivados e, igualmente, um tanto enfastiados. Penso que você há de
concordar comigo. A nossa motivação, no geral, advém do reencontro com alguns
colegas e professores, e da expectativa diante das novidades. Sabemos que
conheceremos novas pessoas e seremos expostos a novos desafios, quer estejamos
em outra série, quer tenhamos que reiniciar nosso percurso na mesma série do
ano anterior. Isso porque a cada ano os professores são diferentes, ainda que
sejam os mesmos. Isso porque a cada ano os alunos são diferentes, ainda que os
mesmos. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, já nos dizia Heráclito, um
pensador da Antiguidade. Não obstante isso, sentimos já um cansaço antecipado
diante das nada convidativas obrigações escolares: acordar cedo, ir à escola,
assistir a aulas (sobretudo aquelas exposições chatas!), fazer trabalho, teste,
prova, etc. Já lamentamos o fato de as férias não serem perpétuas. Tão bom
acordar tarde e não se preocupar com certas coisas! Podemos ficar, de repente,
o dia inteiro ouvindo música, ou assistindo televisão, ou compartilhando posts
no Facebook, ou jogando conversa fora, ou fazendo tudo isso junto. Ou nada
disso também. Vai me dizer que não curte também deitar depois do almoço e
acordar só no início da noite? Mas também nos cansamos da vida boa e queremos,
enfim, fazer algo. Sim, meus caros, o primeiro dia de aula é dia de motivação e
fastio e o nosso desafio é fazer com que este não nos impeça de conhecer novos
sabores e aquela nos leve a enfrentar o enjoo do mar para fazer a descoberta de
novas terras.
Sou como você. Em
parte, motivado, em parte, sem apetite. Mas eu descobri um segredo que
compartilho aqui: movimentar-se faz a gente sentir fome. Serei mais claro:
quanto mais descobertas nós fazemos, mais temos vontade de aprender.
Experimente fazer isto: Esforce-se até conseguir entender aquele problema de
Matemática aparentemente tão difícil. Não tenho dúvidas de que, quando você
estiver, enfim, entendendo, subitamente ficará tão entusiasmado com o resultado
do esforço que terá vontade de estudar ainda mais Matemática. Digo isso por
experiência própria. Matemática nunca foi minha disciplina favorita, mas,
enquanto tive de estudá-la, procurei movimentar-me a fim de passar a ter fome
por resolver problemas matemáticos. É isso exatamente que significa motivação:
do latim motivus, a palavra significa “o que impele, o que move”. A motivação
tem que ser maior que o fastio, pois o fastio só nos leva a rejeitar a possibilidade
de experimentar o novo. Uma pessoa enfastiada recusa o alimento da vida. Viver
é se mover.
Mas se falo de
motivação, não escrevo para falar daquele tipo de motivação que se parece mais
com uma experiência mística. De repente, eu fecho os olhos, mentalizo e eis-me
motivado. Não são simples palavras de um professor-aluno que fará acender o
interruptor motivacional e resolver toda a nossa recusa ao aprendizado formal
da escola. A escola é o dia a dia de acordar cedo e assistir aula e qualquer
mensagem de motivação acaba se perdendo entre um e outro toque do sino que
anuncia a aula seguinte, nessa repetição interminável e enjoativa até o aguardado anúncio de novas férias. Mas
preciso ser muito franco com você: estudar não é uma atividade essencialmente
divertida. Estudar dá trabalho. É, na verdade, nosso trabalho. Quando digo que
estudar não é essencialmente divertido é porque a diversão não faz parte da
“essência” do ato de estudar. Ou seja, podemos até nos divertir estudando, mas
o estudo não pressupõe, necessariamente, a diversão. Certamente muitas das
descobertas da Ciência e da Filosofia ocorreram à custa de muitas horas de
dedicação de alguns homens. Foi esse o caso de Newton, Darwin, Einsten, Hegel,
Bertrand Russel, Wittgenstein, etc. Já se imaginou passar décadas buscando a
explicação para um problema de Matemática? O filósofo Bertrand Russel, para
esclarecer ao menos um dos nomes citados, submeteu-se a isso, para provar que a
Matemática poderia encontrar seu fundamento na Lógica. Não, não estou sugerindo
que você faça o mesmo. O que quero dizer é que estudar exige muito de nós, mas,
ao mesmo tempo, pode ser algo muito gratificante.
Deixe-me explorar um
pouco mais esse ponto. Você nunca passou pela experiência de se dedicar muito à
execução de algo a ponto de se cansar sobremaneira? Nunca sentiu depois a
sensação de satisfação e orgulho de ter executado? Um exemplo simples: sou
muito desorganizado e, no geral, não tenho tempo para arrumar a minha bagunça.
De qualquer forma, porém, sou obrigado a fazer faxina, vez em quando. Fazer
faxina é algo bastante cansativo, concorda? Tem gente que nem sabe o que é
isso, não é mesmo? Bem, passo o dia inteiro rasgando papéis, tirando a poeira
dos livros, limpando os CDs, mudando os móveis de lugar, varrendo a casa,
passando a vassoura no telhado para tirar teias de aranha, jogando coisas fora,
etc. No fim de tudo, estou exausto. Mas olho para o resultado e me dou por
satisfeito. Fico orgulhoso de pôr a casa de forma tão apresentável. Não é
diferente para mim quando, depois de dias dedicado a escrever um artigo,
consigo, afinal, pôr o ponto final no texto para entregá-lo ao professor. Fico
mais feliz, se, ao ler o artigo, percebo que ficou bom. É isso que quero que
você compreenda: estudar muitas vezes é chato, cansativo e exige esforço, mas o
resultado pode ser muito satisfatório. Pense que, se todos fizessem apenas
aquilo de que gostam, o mundo pararia. É claro, o professor, por exemplo, pode
gostar do que faz, mas esse gostar nunca é absoluto. A profissão exige-lhe
muitas vezes que se dedique a questões burocráticas como preencher diários,
fazer relatórios e corrigir provas, tarefas sem dúvida nada agradáveis. Eu
posso estar enganado, mas nunca conheci um professor que gostasse dessas
coisas. Mesmo assim, é preciso que isso seja feito. Um médico pode gostar de
sua profissão, mas certamente, se fosse possível, trabalharia menos tempo do
que lhe é exigido. Mas se isso lhe fosse concedido, faltariam médicos para
atender a população. A mesma situação ocorre com todas as profissões, mesmo
aquelas mais glaumorosas. Um cantor ou um ator precisa se submeter a horas
exaustivas de ensaios. Igualmente, o aluno precisa dedicar horas ao estudo, se
quiser ser bom e – não duvide – todos podem sê-lo. É essa motivação, extraída
da consciência do que representa o ato de estudar e do desejo de encontrar
satisfação pessoal a partir da superação dos desafios do conhecimento, que
espero que você comece a cultivar neste novo ano que se inicia.
Um grande abraço,
Professor Sérgio
Santos.
